Desprezado, trecho da BR-381 carrega longa marca de tragédias
Divino das Laranjeiras e São João do Manteninha – O aposentado Nelson Germano dos Santos, de 65 anos, recorda os desastres que ocorreram no antigo trecho de 125 quilômetros da BR-381 entre Governador Valadares a Mantena, cidades do Vale do Rio Doce, e que ainda passa pelos pacatos municípios de Divino das Laranjeiras, São João do Manteninha e Central de Minas.
– “Se esta estrada é perigosa? Ô, se é. Foi logo ali que um tio meu, o Antônio, morreu atropelado. O Manoel, da barbearia, também perdeu a vida nela. O Raimundo, vaqueiro dos bons, foi mais uma vítima. O advogado Luiz Pacheco, coitado, enterrou dois filhos: o carro em que eles estavam capotou. É uma BR com defeitos no asfalto e curvas fechadas”, contou o aposentado.

Aproximadamente 310 mil pessoas moram nos cinco municípios. Muitas delas rotulam aquele pedaço de asfalto como “a parte esquecida da 381”, pois é o único trecho mineiro da rodovia federal sem proposta de duplicação.
Já o terceiro trecho da estrada, de Governador Valadares a Mantena, é o que usuários chamam de “a parte esquecida da 381”. A duplicação dele depende tanto do Dnit quanto do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-MG). A explicação é simples: o asfalto entre Valadares e a ponte sobre o Córrego Santa Helena, no pacato povoado de São Vítor, é de responsabilidade do órgão federal, pois ele é sobreposto a um pedaço da BR-259 – as duas estradas têm um trecho em comum, a exemplo do que ocorre, em parte do Anel Rodoviário de Belo Horizonte, com a 381, a 262 e a 040.
Por sua vez, o treho que vai do lugarejo de São Vítor a Mantena foi delegado pelo governo federal ao estado, em dezembro de 2002, por meio
da Medida Provisória 82, assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso em concordância com o então governador Itamar Franco. Em razão disso, essa parte da estrada é chamada de MGT-381. Para Nelson dos Santos, o aposentado que perdeu um tio e amigos na via, pouco importa a denominação da estrada. Num dos bancos em frente à matriz de Divino das Laranjeiras, onde mora, ele sonha com o dia em que prestigiará a cerimônia de duplicação da via.
“É uma estrada importante para quem mora no Vale do Rio Doce. É o principal acesso de muita gente ao Norte capixaba e ao Sul baiano. Infelizmente, também é palco de acidentes. Atrás daquele morro, logo na descida, vá lá e veja você mesmo, há uma cruz de madeira. Foi o local em que Manoel, o da barbearia, faleceu. Ele estava numa bicicleta e foi atingido em cheio por um carro. O amigo, que Deus o tenha, não resistiu ao impacto”, recorda Nelson.
Cruzes sinalizam série de desastres
Há outras cruzes ao longo da estrada. Uma delas está no km 20, perto de , uma pequena cidade de São João do Manteninha. A cruz de ferro foi fincada às margens da estrada em memória a duas mulheres. Quem conta é o caseiro João Armiro: “Eram mãe e filha. A moto em que estavam derrapou na pista, há uns oito meses, jogando-as no asfalto. Não resistiram aos ferimentos. Cheguei a ver os corpos. Cena horrível. Na semana passada, foi a vez de um motoqueiro. Passou direto na mesma curva. O veículo deslizou e bateu, bem aqui, no pé da cruz, quase a arrancando. Neste ponto é difícil passar um mês sem acidente.”
A macabra curva do km 20 é uma das mais críticas da estrada. Seu ângulo acentuado é agravado pela geografia do lugar: o traçado está numa descida íngreme. Há quem diga que os acidentes só ocorrem no local devido à imprudência de motoristas que pisam fundo no acelerador. Por outro lado, é bom lembrar que a curva é um prato cheio para colisões frontais. Em outras palavras, mesmo que um condutor desrespeite o limite de velocidade no trecho, há o risco de ele invadir a pista contrária, atingindo motoristas e passageiros inocentes, que trafegam na direção oposta.
A duplicação, conclui João Armiro, evitaria esse tipo de desastre: “Há muitos acidentes no trecho”. Procurada, a Polícia Militar Rodoviária (PMR), responsável pela vigilância no trecho, não informou a estatística de tragédias, mortos e feridos na parte esquecida da 381.
Placas encobertas ou jogadas ao chão
Ao mesmo tempo em que se encantam com a vegetação exuberante, com as montanhas rochosas, nas proximidades da divisa com o Espírito Santo, e com o carisma de moradores do Vale do Rio Doce, motoristas e passageiros que percorrem os 125 quilômetros entre Governador Valadares e Mantena precisam dobrar a atenção com as armadilhas do trecho. O antigo traçado, bastante sinuoso, e as pistas simples sem barreira física entre as direções opostas são os maiores perigos da rodovia, mas o trecho reserva outras ciladas, como placas cobertas pelo mato, buracos e ausência de acostamento.
Já o diretor do DER na região, Geraldo Falsi, acrescenta que o órgão já iniciou obras de recapeamento do asfalto. No trecho entre Mantena e a divisa com o Espírito Santo, o departamento liberou cerca de R$ 2 milhões para dar novo visual à pista. A Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop), que trabalha em parceria com o DER, informou que a roçada já está concluída em cerca de 80 quilômetros e que as intervenções em drenagem, medidas para reduzir a possibilidade de aquaplanagem, serão iniciadas em breve.
Animais dividem pista com veículos

Usuários da via também contribuem para armadilhas. No km 36, onde a estrada corta um pequeno povoado, uma placa que informa a existência de quebra-molas no local foi jogada ao solo. Como a lombada não é colorida, alguns condutores só a enxergam a poucos metros do obstáculo. Três quilômetros adiante, há outro desnível na pista. No km 57, a atenção é para mais uma curva fechada. No km 66, costelas no asfalto.
Dois quilômetros adiante, mais uma descida íngreme. Já no km 73, uma porção de terra se deslocou do barranco e invadiu um pedaço do asfalto. No km 77, perto de Central de Minas, uma placa amarela confunde os usuários. Duas mensagens sobrepostas – viaduto em obras e entrada e saída de veículos – embaralham a vista de motoristas. Outros problemas, no trecho até Governador Valadares, são a falta de acostamento. Na hipótese de um veículo estragar numa curva, o local precisa ser muito bem sinalizado.
Condutores também precisam ter atenção com a possibilidade de animais invadirem a estrada. Há várias fazendas ao longo do trecho. Em janeiro, um caminhoneiro tentou desviar de um cavalo, perdeu o controle do veículo e desceu um barranco. Houve um princípio de incêndio, que foi controlado por outro caminhoneiro. Mas o tanque da carreta se rompeu com o impacto e cerca de 150 litros de óleo vazaram.
Fonte EM




